Dólar caro funciona como ‘banho de água fria’ no comércio

Entrevista de Fabio Silveira para  Portal Varejo em Dia


A alta do dólar, agora próximo de R$ 3,90, funcionou como um banho de água fria nas projeções mais otimistas para o varejo neste ano.

Dólar mais caro significa encarecimento de produtos e insumos importados e cria um ambiente de desconfiança na economia, afetando em cheio os negócios.

E a expectativa de queda da taxa básica de juros da economia, a Selic, hoje de 6,5% ao ano, um estímulo ao consumo, já não é mais tão firme.

A análise é de Fabio Silveira, economista e sócio-diretor da MacroSector Consultores.

Por que o mercado de câmbio se mostrou mais nervoso nos últimos dias?

“O mercado não está vendo no governo de Jair Bolsonaro a capacidade necessária para discutir e, em seguida, aprovar a reforma da Previdência no Congresso”, diz Silveira.

“Se esse estresse entre o executivo e o legislativo continuar, o ritmo de atividade do país vai diminuir afetando em cheio o varejo.”

A previsão dos economistas neste trimestre é de um crescimento do varejo entre 2,5% e 3% neste ano.

Se as discussões em torno da reforma da Previdência continuarem tensas, esses números serão menores ou até negativos, de acordo com Silveira.

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Consumidor ‘ficha limpa’ deve sustentar o consumo em 2019

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia. 


Numa economia com instabilidade política, inflação alta, dólar caro e juros elevados é praticamente impossível fazer projeções otimistas para o consumo.

Economistas e representantes do governo, aliás, estão revendo para baixo o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que não deve passar de 2,5% em 2018.

Tudo indica que as famílias vão continuar restringindo os gastos e, portanto, as lojas vão vender menos e as indústrias, produzir menos.

Mas em meio a todo esse ambiente desfavorável ao consumo há um indicador capaz de deixar os lojistas mais otimistas em relação aos negócios a partir de 2019. Leia mais.

Inflação alta deve enfraquecer poder de barganha do varejo

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia.


É difícil encontrar comerciantes otimistas em um país com 13,7 milhões de desempregados, incertezas políticas, carga tributária elevada e com as maiores taxas de juros do mundo.

Se não está fácil faturar nesse ambiente, outro indicador, divulgado neste mês, sugere que os lojistas vão ter que rebolar ainda mais para vender neste segundo semestre.

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de junho deste ano, de 1,26%, foi o maior desde 1995 para o mês de junho, quando bateu em 2,26%.

Uma inflação deste tamanho, como já se viu no passado, corrói demais o rendimento das famílias, de tal modo que fica impossível manter o padrão de consumo.

Nos últimos 12 meses, com os preços mais controlados, o rendimento das famílias teve aumento real de cerca de 2%. Uma inflação ao redor de 1% destrói metade do que se ganhou em um ano.

Se o cliente não compra, o comerciante não fatura e não compra da indústria. A economia cresce menos, gerando um círculo que provoca depressão da atividade econômica.

Para Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, o IPCA de junho revelou uma ruptura do padrão da inflação do país, o que é ruim para toda a economia.

Nos últimos 12 meses, a inflação estava na faixa de 0,30% a 0,35% ao mês. Em junho do ano passado, o IPCA foi negativo – deflação de 0,23%.

“Parte do mercado entende que essa alta de 1,26% do IPCA em junho não se repete em julho. Pode não se repetir, mas também não cai para os padrões dos últimos 12 meses”, diz.

Para Silveira, a inflação de julho deve ficar entre 0,6% e 0,7%, o que é considerada ainda muito alta, como reflexo do represamento de preços dos atacados durante a crise.

“1% de inflação ao mês corrói os salários de uma forma absurda”, afirma.

Se persistir, a inflação alta vai ter impacto significativo no PIB (Produto Interno Bruto).

No início do ano, os economistas mais otimistas projetavam crescimento de até 3% para o PIB neste ano. “Agora se fala em 1% para 2018 e 2,5% para 2019”, diz Silveira.

Alimentos e bebidas, transportes e habitação são três dos setores que estão mais pressionando a inflação. E são justamente esses com maior impacto no orçamento das famílias.

QUEDA DE BRAÇO

Com esse cenário, as negociações de preços entre as indústrias e os lojistas têm tudo para endurecer neste semestre, de acordo com Silveira.

De um lado existe a pressão das fábricas para repassar os reajustes dos combustíveis, da energia elétrica e de produtos que sofrem a influência do dólar, que está mais caro.

Na outra ponta está o lojista lutando para evitar reajustes de preços, até porque sabe que só consegue movimento maior na loja quando reduz os preços.

O fato é que, numa economia enfraquecida, geralmente, diz o economista, o varejo perde força.

“As negociações vão depender do setor e do produto. Se é algo essencial e há muitos fornecedores, o poder de barganha do varejo aumenta. Caso contrário, a força fica do lado da indústria”, diz ele.

Nelson Tranquez, sócio-diretor da Loony Jeans e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, diz que as confecções já sentem a pressão para a alta de preços das tecelagens.

As fábricas de tecidos aumentaram em 6% a 8% os preços neste ano. Há casos de reajustes na casa de dois dígitos.

“São poucas as indústrias de jeans com qualidade no Brasil. As confecções tentam buscar alternativas, mas nem sempre conseguem achar bons fornecedores”, diz ele.

O que deve se observar numa situação como esta de inflação alta, no caso dos alimentos, é o processo de downgrading de marcas. Isto é, a troca de marcas mais caras por mais baratas.

Para Silveira, o cenário econômico hoje no país, de qualquer forma, não é tão tenebroso como o dos últimos anos da crise, quando indústrias e fábricas tiveram de fechar as portas.

“No início do ano, os indicadores apontavam para uma melhora da economia, só que este horizonte ficou menos animador.”

CUSTOS E RECEITA

Para driblar esse cenário, que pode também piorar com a instabilidade política em véspera de eleições, os lojistas têm de ter sob controle custos e receita, ser criativo, ter bem claro os desejos do público que deseja atingir.

“Não adianta vender de tudo para agradar todo o mundo. É preciso identificar preferencias em alimentos, vestuário, eletrônicos, e estar atento ao que acontece no mundo, não apenas no mercado nacional”.

Para Silveira, os lojistas brasileiros são acomodados e pouco mobilizados para cobrarem, por exemplo, maior concorrência no mercado de crédito para o consumidor.

Ficam as dicas!

Dólar e preços mais caros. Como fica o comércio?

Entrevista de Haroldo Silva para o Portal Varejo Em Dia.


A alta do dólar e da inflação desencadeada pela greve dos caminhoneiros, principalmente, vai deixar sequelas nada desprezíveis para o Brasil em 2018.

Há quatro semanas, a projeção para a inflação oficial do país só sobe. O dólar está na casa de R$ 3,70. Em março, o câmbio beirava os R$ 3,25.

A última estimativa dos economistas é de uma inflação de 3,82% para este ano, de acordo com a pesquisa Focus divulgada semanalmente pelo Banco Central.

O BC já trabalha com uma inflação na casa de 4%, ainda abaixo da meta estipulada para este ano, de 4,5%.

Inflação em alta, dólar mais caro, incertezas em relação aos candidatos à presidência da República, consumidor com medo de gastar, desemprego elevado.

O que os lojistas podem esperar para 2018, ano em que a economia começou bem, após uma intensa crise, mas perdeu fôlego a partir do segundo trimestre?

Veja a análise de dois especialistas no assunto.

Vitor França, economista e consultor da Boanerges e Cia. Consultoria

Qual impacto da alta do dólar para o varejo e para o consumidor?

Não é desprezível, afetando principalmente bens importados e produtos que dependem de insumos importados, como o pãozinho francês.

A desvalorização do real, somada ao impacto da greve dos caminhoneiros sobre os preços de muitos produtos – alimentos in natura, em especial – tende a afetar as expectativas para a inflação.

O que esperar da política de preços da Petrobras e qual o impacto dessa eventual política nos preços dos produtos neste ano?

A Petrobras deve revisar sua política, diminuindo a frequência dos reajustes dos preços dos combustíveis.

Apesar das pressões advindas do aumento do preço internacional e do dólar, é possível que, por causa da greve, o governo segure a partir de agora os reajustes dos combustíveis.

Quais setores do varejo poderão sofrer mais e menos neste ano com esse imbróglio político e econômico?

Setores de bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos, e semiduráveis, como vestuário e calçados, mais dependentes da confiança do consumidor no futuro e da propensão ao financiamento, tendem a ser mais afetados em um ambiente de incerteza.

Bens não duráveis e de primeira necessidade, como alimentos e medicamentos, costumam ser relativamente menos afetados nestes momentos.

Os juros devem voltar a subir ou não na próxima reunião do Copom e por qual motivo?

Já na próxima reunião parece-me pouco provável, mas não descartaria aumentos em um futuro próximo por causa da desvalorização cambial, de outras pressões inflacionárias e do aumento das expectativas para a inflação.

Diante da mudança do cenário internacional, o aumento da Selic poderá ser utilizado ainda para conter a alta da moeda-americana. Eis um nó que a política econômica brasileira não consegue desatar, a dominância cambial.

Há sinais de que a recessão pode voltar ou este cenário incerto pode melhorar após eleição? Por quê?

O ritmo da recuperação da economia já estava aquém do esperado.

A estagnação do mercado de crédito e a alta informalidade do mercado de trabalho seguraram o consumo.

O cenário conturbado, reflexo tanto do ambiente externo (alta dos juros nos EUA) quanto interno (incerteza eleitoral) aumenta a cautela dos agentes.

O cenário eleitoral ainda é imprevisível.

Difícil dizer quem será o próximo presidente, mas, seja quem for, vai se deparar com um Congresso fragmentado e a necessidade de adotar medidas para conter o aumento da dívida pública, como a reforma da Previdência, normalmente impopulares.

Imprevisibilidade tende a adiar decisões de consumo e investimento, retardando ainda mais a já tímida recuperação da economia.

Haroldo da Silva, economista associado à MacroSector

Qual impacto da alta do dólar para o varejo e para o consumidor?

Certamente significará algum aumento de preços.

Evidentemente, não nas mesmas proporções da variação do dólar em relação ao real, mas esse novo patamar de câmbio deve impactar preços do varejo. Nenhum segmento passará sem sentir os efeitos.

Ainda que as mercadorias revendidas não sejam importadas, muitos dos custos estão atrelados à moeda americana.

Desde alimentos – azeite, massas, por exemplo – até roupas, sobretudo as vendidas nas lojas de departamentos, sofrerão a influência de um dólar mais caro.

Contudo, os repasses não devem ser nas mesmas proporções, até mesmo por conta de estarmos numa atividade econômica muito fraca, com alto desemprego e baixa disponibilidade de renda.

Em suma: está mais difícil repassar aumentos de custos.

O que esperar da política de preços da Petrobras e qual o impacto dessa eventual política nos preços dos produtos neste ano?

Volatilidade excessiva é ruim para todos, mesmo para a Petrobras.

O ideal seria algum horizonte mínimo de estabilidade de preços, para que todos possam balizar seus negócios. Mudar diariamente preços é um absurdo.

Temos que caminhar para a desindexação, não para a indexação plena.

O governo tem se mostrado incapaz de organizar minimamente as regras e trazer confiança aos agentes.

Tabela de preços mínimos de transporte reajustada em mais de 50%, certamente não ajuda.

Dizer que há que se buscar previsibilidade mínima não equivale a falar em preços abaixo do mercado, mas sim estáveis por um prazo adequado à realização dos negócios.

Vamos a um exemplo: uma viagem de Goiânia-GO até Sepetiba (RJ) tem quase 1300 quilômetros.

Ao aceitar fazer um trajeto desses, o caminhoneiro precisa minimamente saber qual será o seu custo.

Mas, se a política de preços tiver reajustes diários, como ele poderá formar preços?

Impossível. Assim, os negócios ficam emperrados. Ninguém ganha com isso.

Quais setores do varejo poderão sofrer mais e menos neste ano com esse imbróglio político e econômico?

Sofrem todos. A economia padece por não conseguir se recuperar. Desemprego alto e renda em baixa.

Mas, aqueles setores que têm maior dependência de transporte e exposição de custos frente ao câmbio sofrerão mais.

A nossa expectativa na MacroSector é a de que o varejo como um todo cresça somente 3% neste ano.

No segmento de veículos e peças o crescimento poderá ser mais alto um pouco, pois o crédito tem ajudado muito.

As vendas dos  hipers e dos supermercados estão andando de lado.

Nas vendas de roupas, as previsões estão sendo refeitas para números mais modestos, próximos a 2%.

Informática e comunicação devem ter desempenho praticamente sem crescimento algum em relação ao ano passado, pois o impacto do câmbio é imenso nesse setor.

Os juros devem voltar a subir ou não na próxima reunião do Copom e por quê?

Não creio numa alta de juros já para a próxima reunião. Ainda é prematura qualquer tomada de decisão no pós-greve dos caminhoneiros.

Ademais, o BC reforçou a sua atuação no câmbio, com a venda de SWAPS. Com isso, creio que a taxa deve ser mantida, ao menos por enquanto.

A razão para tanto é que os aumentos de preços devem enfrentar dificuldades claras para prosperar, já que a renda disponível para consumo está estagnada.

Vontade de repasses de preços não falta, tampouco justificativas.

Porém, não existe orçamento disponível para absorver essas altas, quer seja nas famílias, quer seja nas empresas.

Há sinais de que a recessão pode voltar ou este cenário incerto pode melhorar após eleição? Por quê?

Lamentavelmente, a economia deve permanecer claudicante neste ano.

Este governo, tecnicamente já acabou. É uma pena.

As eleições serão muito disputadas e as candidaturas extremadas são uma preocupação, não só do mercado, mas de todos os brasileiros não- radicais.

Após as eleições, a preocupação será em articular com um Congresso, que não deve ser muito renovado.

Além disso, o próximo presidente terá que escolher uma equipe competente e técnica, na medida do possível.

Diminuir a influência política nos ministérios seria muito importante, mas se sabe da dificuldade que é fazer isso.

Por fim, o que o país precisa é de alguém capaz de reaproximas as diferentes correntes de pensamento.

Reduzir o fosso da desigualdade que só aumenta.

Deve ser capaz, ainda, de fazer reformas importantes (como a da Previdência, em primeiro plano) que reduzam privilégios e que deem a possibilidade de se usar o orçamento público para resolver problemas sérios, como segurança, saúde e educação.

Contudo, a preocupação é que vários dos candidatos atuais ainda não se mostraram dispostos a enfrentar isso.

Prevê-se que IPCA subirá 4,2% em 2018

Por causa da elevação de preços agrícolas e de combustíveis.

Mestre em economia pela Universidade de Grenoble (França) e pós-graduado pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais e de Desenvolvimento de Genebra (Suíça). Economista formado pela USP. Foi superintendente de estudos setoriais e de investimentos do UNIBANCO, além de economista da Copersucar e do Senai. Atuou nas principais consultorias do país. Hoje é sócio-diretor da MacroSector Consultores.