Retomada pra valer ainda distante

(publicado em O Estado de S. Paulo, 17/09/2016, p. B-2)

Antonio Correa de Lacerda*

Embora haja alguns indicadores denotem inversão de sinal negativo, para estável ou ligeiramente positivo, a retomada mais firma da atividade econômica brasileira ainda está distante. O que favorece estatisticamente a reversão da longa trajetória de queda é a base atual de comparação é extremamente baixa. Isso, porque desde o último trimestre de 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) vem apresentando resultados fracos, o que fez erodir a base.

Os indicadores mais recentes também não são animadores. O PIB do segundo trimestre do ano recuou 0,6%, comparativamente ao trimestre anterior e 4,9% nos doze meses acumulados até junho. Vários são os fatores que restringem a retomada da economia. O desemprego elevado, próximo de 11% da População Economicamente Ativa (PEA), com tendência de alta. O salário médio real segue em queda e deve fechar o ano com -3,5%, implicando em uma queda da massa salarial da ordem de 6%. O nível de confiança do consumidor continua retraído, o que junto com o encarecimento do crédito desestimula as decisões de compras.

Os elevados juros oferecidos nas aplicações financeiras, cuja base é a Selic que há uma ano permanece em 14,25%, incentivam essas operações, em detrimento do empreendimento. O custo do financiamento muito acima da rentabilidade esperada nas atividades produtivas também não animam o investimento. Em muitos segmentos, especialmente na indústria, há ainda elevada capacidade ociosa, o que tende a retardas as decisões de novas ampliações.

Infelizmente, o discurso oficial de que apenas a expectativa de queda da inflação e sinalização do distante ajuste fiscal sejam suficientes para a retomada da confiança, que traria o crescimento por si só, não se sustenta. Falta uma estratégia de politica econômica que propicie e induza as condições para o crescimento.

A própria politica cambial tem colocado um elemento de incerteza aos tomadores de decisão. Depois de uma forte desvalorização até o início deste ano quando superou os R$ 4,00 por US$, o real vem se revalorizando para níveis próximos de 3,20. Esta volatilidade não é boa para quem toma decisões de produção, importação, exportação e de investimentos. A desvalorização havia provocado o início de um processo gradual de substituição de importações pela produção doméstica, com o aumento da competitividade da a indústria local. Alguns investimentos necessários à localização da produção foram iniciados.

Da mesma forma, as exportações, especialmente de manufaturados vinham sendo estimuladas. O mercado doméstico retraído e a melhora da rentabilidade das vendas externas vinham fazendo com que mais empresas buscassem clientes no exterior.

Mas, tudo isso são movimentos de médio e longo prazo e que requerem uma moeda competitiva, ou seja, desvalorizada e estável. Bem ao contrário do que vem ocorrendo. A elevada taxa de juros local vem provocando o ingresso de capitais especulativos e isso pressiona para a valorização do real.

Assim, muito dos movimentos iniciais observados na estrutura da produção estão sendo descontinuados. Além disso, os demais fatores de competitividade sistêmica continuam desfavoráveis. É o caso da burocracia excessiva, do custo de infraestrutura e logística, tributação que não estimula a agregação de valor. Tudo isso ainda vai adiar o impulso para uma retomada mais consistente e robusta.

Enquanto o quadro descrito não for revertido, continuaremos, lamentavelmente, reféns do curto prazo e da especulação, em contraponto à atividade produtiva. O problema é que é impossível para uma Nação com as características da brasileira, como elevado desemprego, crescimento da população ativa, ainda expressiva concentração de renda, se desenvolver sem estimular a atividade produtiva, na indústria, na agropecuária e nos serviços.

*professor-doutor da PUC-SP, associado da Fundação Dom Cabral e sócio-diretor da MacroSector Consultores