Governo acreditou na ‘Fada da Confiança’

Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP e sócio-diretor da MacroSector, também defende o alívio monetário. Para ele, o governo falhou ao apostar que a sinalização de reformas fiscais animaria o mercado a ponto de alavancar investimentos.

— Essa história não funciona. É o que o (Paul) Krugman (prêmio Nobel de Economia) chama de acreditar na fada da confiança — critica.

 

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Receita de grãos do Brasil deve crescer R$23,7 bi em 2017

Portal DuPont Pioneer, por Laís Martins, em 01/12/2016

 

A consultoria MacroSector estimou receita de 216,8 bilhões de reais para a produção de grãos no Brasil em 2017, um aumento de 23,7 bilhões de reais em comparação com 2016, com impulso do maior faturamento do milho e da soja, cujas safras devem se recuperar após a seca deste ano.

A MacroSector estima a safra de milho de 2017 em 72,5 milhões de toneladas, ante 63,6 milhões de toneladas em 2016. A produção do cereal deverá render 55,7 bilhões de reais, alta de 12 bilhões de reais em comparação com 2016.

A soja, cuja produção de 2017 foi estimada em 99,4 milhões de toneladas, terá alta de 8,6 bilhões de reais na receita de 2017, para 130,4 bilhões de reais.

A consultoria também vê crescimento na safra e na receita do algodão, arroz e feijão em 2017.

O trigo foi o único grão cuja previsão de receita registrou queda em 2017 ante 2016, em uma retração de 200 milhões de reais, para 4,4 bilhões de reais, com os preços mais baixos do cereal.

A produção de trigo em 2017 foi projetada acima da projeção de 2016, em 6,7 milhões de toneladas, ante 6,3 milhões na safra anterior.

A MacroSector também estimou as receitas do café e da cana-de-açúcar em alta em comparação com o faturamento do ano anterior.

No café, a projeção é para receita de 22,4 bilhões de reais, 3,3 bilhões acima do faturamento projetado para 2016.

Na cana, deve haver uma alta de 5,2 bilhões de reais em 2017, para 62,1 bilhões de reais.

 

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Retomada pra valer ainda distante

(publicado em O Estado de S. Paulo, 17/09/2016, p. B-2)

Antonio Correa de Lacerda*

Embora haja alguns indicadores denotem inversão de sinal negativo, para estável ou ligeiramente positivo, a retomada mais firma da atividade econômica brasileira ainda está distante. O que favorece estatisticamente a reversão da longa trajetória de queda é a base atual de comparação é extremamente baixa. Isso, porque desde o último trimestre de 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) vem apresentando resultados fracos, o que fez erodir a base.

Os indicadores mais recentes também não são animadores. O PIB do segundo trimestre do ano recuou 0,6%, comparativamente ao trimestre anterior e 4,9% nos doze meses acumulados até junho. Vários são os fatores que restringem a retomada da economia. O desemprego elevado, próximo de 11% da População Economicamente Ativa (PEA), com tendência de alta. O salário médio real segue em queda e deve fechar o ano com -3,5%, implicando em uma queda da massa salarial da ordem de 6%. O nível de confiança do consumidor continua retraído, o que junto com o encarecimento do crédito desestimula as decisões de compras.

Os elevados juros oferecidos nas aplicações financeiras, cuja base é a Selic que há uma ano permanece em 14,25%, incentivam essas operações, em detrimento do empreendimento. O custo do financiamento muito acima da rentabilidade esperada nas atividades produtivas também não animam o investimento. Em muitos segmentos, especialmente na indústria, há ainda elevada capacidade ociosa, o que tende a retardas as decisões de novas ampliações.

Infelizmente, o discurso oficial de que apenas a expectativa de queda da inflação e sinalização do distante ajuste fiscal sejam suficientes para a retomada da confiança, que traria o crescimento por si só, não se sustenta. Falta uma estratégia de politica econômica que propicie e induza as condições para o crescimento.

A própria politica cambial tem colocado um elemento de incerteza aos tomadores de decisão. Depois de uma forte desvalorização até o início deste ano quando superou os R$ 4,00 por US$, o real vem se revalorizando para níveis próximos de 3,20. Esta volatilidade não é boa para quem toma decisões de produção, importação, exportação e de investimentos. A desvalorização havia provocado o início de um processo gradual de substituição de importações pela produção doméstica, com o aumento da competitividade da a indústria local. Alguns investimentos necessários à localização da produção foram iniciados.

Da mesma forma, as exportações, especialmente de manufaturados vinham sendo estimuladas. O mercado doméstico retraído e a melhora da rentabilidade das vendas externas vinham fazendo com que mais empresas buscassem clientes no exterior.

Mas, tudo isso são movimentos de médio e longo prazo e que requerem uma moeda competitiva, ou seja, desvalorizada e estável. Bem ao contrário do que vem ocorrendo. A elevada taxa de juros local vem provocando o ingresso de capitais especulativos e isso pressiona para a valorização do real.

Assim, muito dos movimentos iniciais observados na estrutura da produção estão sendo descontinuados. Além disso, os demais fatores de competitividade sistêmica continuam desfavoráveis. É o caso da burocracia excessiva, do custo de infraestrutura e logística, tributação que não estimula a agregação de valor. Tudo isso ainda vai adiar o impulso para uma retomada mais consistente e robusta.

Enquanto o quadro descrito não for revertido, continuaremos, lamentavelmente, reféns do curto prazo e da especulação, em contraponto à atividade produtiva. O problema é que é impossível para uma Nação com as características da brasileira, como elevado desemprego, crescimento da população ativa, ainda expressiva concentração de renda, se desenvolver sem estimular a atividade produtiva, na indústria, na agropecuária e nos serviços.

*professor-doutor da PUC-SP, associado da Fundação Dom Cabral e sócio-diretor da MacroSector Consultores