Juro real alto ainda é trava na retomada da atividade industrial e dos serviços

Entrevista com Antonio Lacerda, sócio-diretor da MacroSector, por Paula Salati para o DCI em 11/01/2017

 

 

 

Na avaliação da consultoria MacroSector, mesmo com cortes na Selic, custos reais e taxa de capital de giro dificultam recuperação. Na contramão, agropecuária pode crescer até 3% em 2017.

Os juros altos ainda devem dificultar uma recuperação mais robusta dos serviços e da indústria neste ano. Por outro lado, a expectativa de crescimento da safra de grãos pode garantir uma expansão de até 3% da agropecuária.

Apesar da expectativa de que o Banco Central (BC) dê continuidade à redução da taxa básica de juros (Selic) hoje, o economista da MacroSector Consultores, Antonio Corrêa de Lacerda, diz que o alto patamar do juro real (diferença entre a inflação e a Selic) e a elevada taxa de capital de giro ainda são obstáculos para a saúde financeira das empresas de serviços e industriais que costumam captar recursos para melhorar fluxo de caixa ou para fazer aportes.

“Não adianta a Selic cair se os juros reais continuarem muito altos. Este é o balizador mais importante das outras taxas [para captar empréstimos]”, afirma Lacerda. “O juro real está elevado porque a inflação está caindo mais rapidamente que a Selic, tendência que deve se prolongar ao longo do ano”, acrescenta o economista.

Sem a queda do juro real e com a inadimplência das empresas batendo recorde, fica mais difícil, portanto, encorajar os bancos a oferecerem taxas de capital de giro mais vantajosas às companhias. Segundo dados mais atualizados do BC, a taxa de empréstimos para fluxo de caixa estava alta em novembro de 2016 (24,7%), apesar de menor do que em janeiro do mesmo ano (29,2%). A inadimplência das empresas, por sua vez, está em seu maior patamar (5,7%) em dois anos.

De acordo com projeções de instituições financeiras ouvidas pelo BC no relatório Focus, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve chegar a 6,35% em 2016 e 4,81% neste ano. O indicador do ano passado também será divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pela manhã. E no final da tarde, a taxa Selic será definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Atualmente, os juros básicos estão em 13,75% ao ano, e podem terminar 2017 em 10,25%.

Ociosidade

Todo o cenário traçado por Lacerda deve fazer com que a indústria cresça somente 0,5% neste ano, após a possibilidade de cair 3,5% em 2016. “Outro componente que impede uma retomada mais robusta da indústria no Brasil é a sua alta capacidade ociosa”, completa ele, que, por outro lado, indica que o câmbio e a recuperação dos preços de minério de ferro são pontos favoráveis para a indústria doméstica.

A mediana das projeções de instituições ouvidas pelo BC também apontam para uma alta de apenas 0,55% do PIB industrial em 2017. O setor deve registrar a sua última queda trimestral na comparação anual neste primeiro trimestre (-0,7%), passando a crescer entre os meses de abril e junho deste ano (+0,5).

Serviços deve registrar a sua terceira queda anual consecutiva em 2017, afirma a MacroSector, estimando retração de 0,1% para o setor. Já o Focus prevê alta de apenas 0,03% para o segmento em 2017. O boletim aponta, ainda, que os serviços devem cair trimestralmente na comparação anual até junho (-1,04% no primeiro trimestre e -0,04% no segundo), passando a crescer no período entre os meses de julho e setembro (+0,5). “Além dos juros altos, o alto nível de desemprego e a continuidade da queda da renda são outros fatores que devem fazer com que a recuperação dos serviços seja mais tardia do que a dos demais setores”, diz Lacerda.

Na contramão dos demais setores, a agropecuária pode crescer até 3,3% neste ano, segundo a mediana das projeções do Focus. Já para a MacroSector, o segmento tende a registrar expansão de 1% no mesmo período. O movimento ascendente será puxado pelo crescimento da safra brasileira de grãos. Segundo o IBGE, esta deve avançar 16,1% em 2017 ante 2016, com todas as regiões do País apresentando aumento na produção: Norte (13,4%), Nordeste (73%), Sudeste (11,1%), Sul (5,8%) e Centro-Oeste (20,5%).

 

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