‘Efeito Biden’ reforça relevância de indicadores de economia e meio ambiente

16 de novembro de 2020

Por Fabio Silveira, MacroSector Consultores.


A construção de indicadores capazes de medir a conflituosa relação entre produto econômico e meio ambiente será cada vez mais importante no contexto nacional e internacional. A vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais americanas levará o Brasil, nos próximos anos, a atribuir crescente relevância à defesa da natureza como princípio da ordem econômica.

Medir a evolução de um dos principais gases causadores do aquecimento global, o CO2, poderá fazer a diferença na caminhada para as conquistas de avanços concretos no desenvolvimento sustentável, até aqui mais um conceito ligado ao campo doutrinário do que uma prática.

Um dos indicadores mais conhecidos é a “Emissão de CO2 por Tipo de Combustível”, da IEA (Agência Internacional de Energia), que mede a variação anual de gás carbônico no planeta. O CO2 é considerado o mais nocivo gás de efeito estufa dentre os diversos que contribuem para a escalada das ameaças das mudanças climáticas às populações e à biodiversidade.

O quadro abaixo mostra os níveis de dióxido de carbono por blocos econômicos na década de 2010, com destaque para alguns países de maior interesse, tais como EUA, China e o próprio Brasil. Na referida década, cujo crescimento do PIB mundial foi de 3,4% ao ano, a geração desse gás cresceu 1,6% ao ano.

Esses indicadores revelam também que caminhamos na contramão das nações mais desenvolvidas, justificando a necessidade de adoção de políticas públicas voltadas à desaceleração do crescimento de CO2 no Brasil. O “efeito Biden” não permitirá o adiamento de uma postura mais firme do país em defesa do meio ambiente.

Embora seu PIB tenha aumentado, em média, 1,5% ao ano (e seja responsável, hoje, pela criação de cerca de 50% da riqueza mundial), o bloco de países integrantes da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico) reduziu a emissão do principal fator de aquecimento global, em média, 0,5% ao ano durante o período. A OCDE é uma organização intragovernamental, fundada nos anos 60, que visa estimular o crescimento e o comércio mundial.

Por outro lado, o bloco econômico que mais contribuiu para a expansão do maior responsável pela formação do chamado “efeito estufa” foi o bloco dos países não-integrantes da OCDE, cuja emissão subiu, em média, 2,9% ao ano, sendo destaques China e Índia, grandes produtores industriais, cujas taxas médias de elevação de CO2 foram 3,2% e 4,5% ao ano, respectivamente.

Neste segundo bloco está o Brasil, onde a emissão do referido gás teve expansão média de 2,2% ao ano no último decênio, observando-se incremento mais vertiginoso na primeira metade dos anos 2010, quando a economia brasileira apresentava maior dinamismo.

O registro da taxa de elevação mencionada acima (2,2% ao ano) justifica, per si, a necessidade de haver o desenho de políticas públicas voltadas à desaceleração do crescimento de CO2 no país e torna mais pertinente o “efeito Biden” descrito acima, pois:

a) seguimos em sentido contrário ao dos países desenvolvidos; e

b) nosso desempenho ambiental é bem pior que o da Rússia, por exemplo, onde a liberação do referido gás elevou-se 1,1% ao ano na última década (ou seja, a metade do crescimento brasileiro), mesmo sendo os russos detentores de uma grande e poluente cadeia industrial, a de petróleo e gás.