Corte no consumo das famílias pode chegar a R$ 600 bi em 2020

Entrevista de Fabio Silveira para Fátima Fernandes em Varejo em Dia


O consumo das famílias tem sido o motor da economia brasileira nos últimos anos, representando cerca 65% do Produto Interno Bruto do país.

De um PIB de R$ 7,26 trilhões em 2019, 1,1% maior do que o de 2018, descontando a inflação, as famílias contribuíram com aproximadamente R$ 4,71 trilhões.

Com a pandemia do novo coronavírus e seus impactos, isto é, menos vendas, produção e investimentos e mais dívidas e desemprego, o que esperar das famílias em 2020?

A equipe de economistas da MacroSector Consultores faz algumas projeções, considerando que o consumo deve ter uma queda de 12% neste ano.

Neste caso, o consumo das famílias cai para R$ 4,15 trilhões. O corte nos gastos em relação ao ano passado, portanto, é de R$ 565,5 bilhões.

Este valor representa praticamente um faturamento e meio do setor supermercadista no país, que foi de R$ 378,3 bilhões no ano passado.

E quase o faturamento anual do setor de alimentos e bebidas no Brasil, R$ 700 bilhões em 2019.

“É uma redução de consumo muito expressiva, com impacto generalizado na economia brasileira”, afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

No ano passado, os gastos das famílias brasileiras eram da ordem de R$ 13 bilhões por dia. Neste ano, devem ficar em R$ 11,5 bilhões ou R$ 45 bilhões por mês.

Para ter uma ideia do tamanho do tombo mensal, o setor de beleza no Brasil exibe um faturamento anual da ordem de R$ 50 bilhões.

“Essa crise vai destruir o equivalente a dois faturamentos da cadeia têxtil brasileira, de R$ 200 bilhões por ano”, diz Silveira.

Um caminho para amenizar essa crise sem precedentes na história do Brasil, diz ele, é a transferência de recursos do governo para famílias e empresas de forma mais rápida.

Micro e pequenas empresas formais e informais, diz Silveira, são os sustentáculos de demandas de empresas maiores.

“Não há vergonha alguma em transferir recursos, até mesmo a fundo perdido, para a base da sociedade”, afirma.

Nos Estados Unidos, diz ele, a transferência de renda, na casa dos trilhões de dólares, já está fazendo o desemprego subir menos.

“Ainda assim, o PIB nos Estados Unidos deve cair 5% neste ano. Aqui no Brasil, a queda será quase o dobro.”

As instituições financeiras também precisam, de acordo com Silveira, facilitar o acesso a capital de giro para as empresas, como as do varejo.

“Os padrões do comércio vão mudar, vai ter menos cliente, menos venda, menos rentabilidade. Ao mesmo tempo, as empresas vão ter de investir em tecnologia.”

O varejo, diz ele, vai ter de buscar caminhos que nunca imaginou que precisaria. “Buscar mais recursos em bancos, melhorar planejamento de ações, treinar mais a mão de obra.”

O comércio eletrônico tem sido apontado por especialistas como a principal saída para evitar uma quebradeira generalizada no setor.

Antes da quarentena, a média de abertura de lojas virtuais era de 10 mil por mês. Desde o início das medidas para o isolamento social, 107 mil lojas virtuais já foram abertas.

Os números são da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm). As lojas abertas são, principalmente, dos setores de roupas, calçados, alimentos e serviços.

A associação informa que, durante a quarentena, dois milhões de novos consumidores passaram a fazer compra pela internet.

É provável que uma parte deles vai preferir, a partir de agora, receber os produtos em casa, de acordo com especialistas.