Coronavírus e petróleo: primeiros impactos

Fabio Silveira


Neste início de ano, a economia internacional foi atingida por dois choques independentes, embora conexos. Já em processo de desaceleração desde 2018, os países desenvolvidos e emergentes foram surpreendidos: a) pela inesperada disseminação do COVID-19 (novo coronavírus) em seus respectivos territórios, no primeiro bimestre; e b) pelo “estouro da bolha” do preço do petróleo nos mercados futuros, em março.      

Ambos os eventos possuem considerável poder de corrosão da riqueza mundial. O coronavírus compromete diretamente a livre circulação de pessoas, bens e serviços, levando muitas empresas a operar abaixo da plena capacidade e, por consequência, com menor rentabilidade. Trata-se, portanto, de inegável (e, até hoje, inédito) fator de destruição de valor das corporações.

A drástica redução do preço do petróleo, por sua vez, demonstra que os fundamentos deste mercado estavam, há tempos, apoiados em premissas equivocadas, largamente sustentadas por movimentos de capitais especulativos.

De fato, bastou uma simples disputa comercial entre Arábia Saudita e Rússia para que a cotação do barril despencasse do patamar de US$ 50,0 para menos de US$ 35,0, alarmando as mesas de operações financeiras. Nelas, muitos começaram a acreditar que, após a passagem do COVID-19, a demanda mundial de petróleo não deverá se sustentar no patamar atual de 100,0 milhões de barris / dia, o que também contribuiu para destruição da riqueza global nesta semana.

 

Assim como em outros países, o Brasil vem sendo prejudicado pela volatilidade que toma conta das bolsas internacionais, nas quais grandes detentores de capitais estão se desfazendo de ativos mais arriscados (como títulos brasileiros) e buscando abrigo em dólar e títulos americanos, preferencialmente. Por isso, nos dez primeiros dias de março, a taxa média do câmbio[1] atingiu a marca de R$ 4,59 / US$, ou seja, ficando 8,1% acima do patamar médio vigente no primeiro bimestre deste ano; e 19,5% mais alto do que a taxa de março de 2019.

A despeito da alta do dólar, os preços dos combustíveis no Brasil tendem a diminuir nos próximos meses, pois, desde o início de 2020, a variação da moeda americana foi proporcionalmente menor que o declínio das cotações externas de petróleo, gasolina e óleo diesel.

Tal barateamento dos combustíveis em futuro próximo no país, por sua vez, deve arrefecer a tendência de elevação dos índices gerais de preços, já que houve o “estouro da bolha” dos preços internacionais de “petróleo e derivados”, mas os preços de produtos agrícolas em geral não sofreram o mesmo impacto.

Nos últimos trinta dias, por exemplo, as cotações de soja e milho, na Bolsa de Chicago, permaneceram praticamente estáveis. Isto significa que parte, pelo menos, dos preços domésticos dos alimentos no atacado está, no momento, sob pressão altista (devido, exatamente, à desvalorização do real ocorrida nas últimas semanas), e podendo, mais adiante, ser repassado para o consumidor.

A volatilidade de preços de ativos nas bolsas mundiais também desorienta o planejamento da produção e do comércio entre países, sendo que alguns deles (China, Japão, Coreia e Itália) já estão internamente muito desorganizados, por causa da paralisia de diversas atividades econômicas e da adoção de medidas sanitárias que visam conter a expansão do coronavírus.

É de se esperar, portanto, daqui algumas semanas, que o Brasil comece a sofrer, com maior intensidade, os efeitos desses choques externos em suas cadeias de produção e comercialização, levando a uma desaceleração de seu crescimento em 2020.

 

Num primeiro ajuste, para este ano, a projeção de variação do PIB brasileiro foi reduzida de 2,2% para 1,8%. Mas este indicador está sujeito a outros encolhimentos, o que depende dos danos econômicos que venham a ser provocados, ainda, pela propagação do coronavírus no âmbito mundial e nacional.

 

[1] Dólar Ptax de Venda.