Alguns significados da alta recente da bolsa chinesa

Fabio Silveira


Nas últimas semanas, o mercado de ações da China (segundo maior do mundo) subiu fortemente, sinalizando que a histórica pandemia da Covid-19 está sob controle no gigante asiático (onde, aliás, esse vírus surgiu, de forma inédita, no final do ano passado). Em 10 / 07 / 20, o Índice Shangai atingiu marca 23% superior à do início de fevereiro, logo após a OMS (Organização Mundial da Saúde) ter declarado estado de emergência global, devido à disseminação do Coronavírus em território chinês.

É verdade que a majoração do índice foi sustentada, também, por movimentos especulativos provocados pela expansão de liquidez realizada pelos principais bancos centrais do planeta, logo após a referida declaração, visando evitar um colapso econômico global. Adicionalmente, cabe reconhecer que subsiste, ainda, considerável volatilidade nos mercados internacionais de renda fixa, renda variável e moedas.

De todo modo, prevalece no ambiente financeiro a leitura de que a economia chinesa, no segundo semestre, tende a ganhar aceleração, alavancando seu processo de geração de salários, lucros e tributos. A mesma percepção favorável aplica-se a outros países com respeitável porte econômico, que igualmente dominaram o avanço da doença, tais como Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Coreia do Sul, Espanha, países nórdicos, entre outros.

Além disso, tornou-se nítido que os paradigmas de governança de empresas e famílias serão bastante modificados daqui para frente. A exemplo do ocorrido em tempos similares de ruptura da história do capitalismo moderno, estamos, neste momento, diante de mudanças substanciais nas relações entre capital, trabalho e tecnologia. Desta vez, abrangendo países do Ocidente e do Oriente, de maneira simultânea e instantânea, em “real time”. Definitivamente, acabou o século XX.

Na década de 2020, haverá não apenas a criação de novos processos de produção e distribuição de bens e serviços, mas também o lançamento de novos produtos. Home Office e digitalização de diversas atividades econômicas serão práticas crescentes no quotidiano, assim como a construção de cenários e o desenvolvimento de análises e indicadores preditivos, baseado na utilização de séries históricas e banco de dados. Afinal, o medo do surgimento de novos vírus e pandemias continuará integrando a ação de empresas e consumidores no médio e longo prazo, que pretendem estar melhor preparados para reagir frente a alterações bruscas de mercado como as impostas pela Covid-19.

No caso do Brasil, mantém-se a expectativa de que suas atividades econômicas, em particular da indústria e do setor de serviços, permaneçam com fraco dinamismo até o final deste ano, em função, entre outros fatores, da maior dificuldade de sua população, em relação à de outros países, em cumprir regras de isolamento social que diminuam a circulação do coronavírus.

O desafio do País, porém, não está colocado apenas no horizonte mais imediato. Cabe reverter a tendência estrutural de declínio do nível de utilização da capacidade de sua indústria, que se acentuou com a pandemia, evidentemente (ver gráfico abaixo). Espera-se que a possibilidade, posta agora, de elaboração de melhor planejamento do futuro do setor venha a se concretizar, pautada não apenas pelo senso de urgência, mas também pela disponibilidade de maior tecnologia para tanto.