Emprego e renda em queda emperram retomada do varejo

MacroSector Consultores prevê queda de 3,3% na massa real de salários em 2020. Entrevista de Fabio Silveira para Fátima Fernandes em Diário do Comércio.

Um dos assuntos mais discutidos nas rodas virtuais dos lojistas é se – e quando – o Brasil vai voltar a exibir os números de antes da pandemia do novo coronavírus.

Se considerados os dois dos principais motores da economia brasileira, emprego e renda, as perspectivas não são nada favoráveis pelo menos até o final deste ano.

Sintoma de bem-estar ou mal-estar de uma economia, a massa real de salários do brasileiro sofreu o maior baque de sua história.

Em abril, a massa real de salários caiu 0,8%, em maio, 2,8%, e, em junho, 6,3%, na comparação com os mesmos meses do ano passado.

Esses indicadores até que vinham bem no final do ano passado e início de 2020.

Em janeiro deste ano, esse número foi positivo em 2,2%, em fevereiro, em 1,9% e, em março, em 1,5%, apesar do início do isolamento social.

A massa real de salários é o resultado do número de ocupados (quase 86 milhões de pessoas) com ou sem carteira assinada vezes o rendimento médio mensal desses trabalhadores.

Os cálculos e as projeções são da equipe da MacroSector Consultores, com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A queda da massa real de salários de abril e maio está baseada em dados já divulgados pelo IBGE e a de junho é uma projeção.

De acordo com a MacroSector, a massa real de salários do brasileiro vai cair neste ritmo todo o mês até o final do ano, recuando 5,5% em dezembro. Na média do ano, o tombo deve ficar em 3,3%.

“Essa queda da massa real de salários não tem paralelo na história recente do país. Deve fechar loja até cansar neste ano”, afirma Fábio Silveira, sócio-diretor da MacroSector.

Em 2016, no ano do impeachment da então presidente Dilma Roussef, a queda da massa real de salários foi de 4% em janeiro, 4,4% em fevereiro e 3,8% em março.

Naquele ano conturbado politicamente, o mês de junho registrou a maior queda, de 4,6%. As comparações são sempre com iguais períodos de anos anteriores.

“Não é uma crisezinha, é uma virada abrupta nos números, revelando que os brasileiros têm bem menos potencial para a realização de gastos.”

Para Silveira, o país está no que pode se dizer ‘o início do abismo’.

A queda de produção da indústria já ocorreu. Daqui para a frente o ajuste virá no mercado de trabalho.

Há dois meses os lojistas já começaram a cortar funcionários prevendo que as vendas seriam tímidas com a reabertura.

“Muitas lojas abriram para vender o estoque, mas já sabem que vão fechar após o estoque acabar”, afirma um empresário que comanda uma associação do setor que preferiu não se identificar.

De acordo com ele, o momento é “muito dramático”, sem suporte do governo em vários setores. “Infelizmente, veremos muitas lojas fechando.”

Marcas estrangeiras, especialmente do mercado de luxo, estão reavaliando os investimentos. “Estão repesando onde colocar os seus ovos e o Brasil não está bem na lista”, diz.

O período para a normalização da economia brasileira, muito provavelmente, de acordo com Silveira, será mais longo do que em outras economias.

Isso porque o confinamento foi mais difícil e indisciplinado por aqui, e, portanto, a propagação do vírus da covid-19 continua em ritmo crescente no país.

Se a massa real de salários diminui, consequentemente, diz ele, a oferta de crédito dos bancos fica mais escassa, com a possibilidade de aumento da inadimplência.

“Vai ter maior risco para a concessão de crédito e por isso as instituições financeiras estarão bem mais cautelosas na hora de liberar financiamento.”

É fundamental, neste momento, diz ele, que o governo dê crédito às pequenas e médias empresas na tentativa de impedir que elas sofram ainda mais e que a contração do mercado de trabalho seja mais aguda em 2020.

O auxilio emergencial do governo às famílias de menor renda tem ajudado o comércio mais popular neste momento. Mas quando acabar o dinheiro, diz ele, o tombo no consumo pode ser ainda maior.

A boa notícia é que, geralmente, no mundo da economia há ciclos, diz Silveira. Depois de uma contração tão grande como esta existe uma reação.

“Estamos vivendo um ajuste cíclico dos mais fortes na história da economia mundial. Vamos ver a degola de muitas empresas, mas uma melhora surge mais para a frente.”

A taxa de mortalidade por conta da covid-19 diminuiu em vários países, como na China, que já mostra reação em sua economia.

“Exemplos de alguns países mostram reação entre quatro a seis meses, após o início da pandemia. Vamos torcer para acontecer o mesmo por aqui.”

No primeiro semestre deste ano, o baque na economia brasileira, diz ele, foi atenuado por conta das exportações de produtos agrícolas, como a soja.

Neste semestre não terá o mesmo volume exportado.

Além disso, os países que compram do Brasil também estão com suas economias fragilizadas e consumindo menos. “Este será um segundo semestre para esquecer.”

 

IMAGEM: Rovena Rosa/Agência Brasil

 

Rentabilidade agrícola 2021 – Quem ganha e quem perde?

Perspectivas para a rentabilidade do agronegócio no próximo ano. Assista o Webinar realizado pela Macrosector em 23 de julho de 2020.

Expositores: Fabio Silveira (Economista) – Sócio-Diretor da Macrosector Consultores, Eduardo Daher (Economista) – Diretor Executivo da ABAG (Associação Brasileira do Agronegócio).

Mediadora: Alessandra Mello (Jornalista).    

 

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Alguns significados da alta recente da bolsa chinesa

Fabio Silveira


Nas últimas semanas, o mercado de ações da China (segundo maior do mundo) subiu fortemente, sinalizando que a histórica pandemia da Covid-19 está sob controle no gigante asiático (onde, aliás, esse vírus surgiu, de forma inédita, no final do ano passado). Em 10 / 07 / 20, o Índice Shangai atingiu marca 23% superior à do início de fevereiro, logo após a OMS (Organização Mundial da Saúde) ter declarado estado de emergência global, devido à disseminação do Coronavírus em território chinês.

É verdade que a majoração do índice foi sustentada, também, por movimentos especulativos provocados pela expansão de liquidez realizada pelos principais bancos centrais do planeta, logo após a referida declaração, visando evitar um colapso econômico global. Adicionalmente, cabe reconhecer que subsiste, ainda, considerável volatilidade nos mercados internacionais de renda fixa, renda variável e moedas.

De todo modo, prevalece no ambiente financeiro a leitura de que a economia chinesa, no segundo semestre, tende a ganhar aceleração, alavancando seu processo de geração de salários, lucros e tributos. A mesma percepção favorável aplica-se a outros países com respeitável porte econômico, que igualmente dominaram o avanço da doença, tais como Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Coreia do Sul, Espanha, países nórdicos, entre outros.

Além disso, tornou-se nítido que os paradigmas de governança de empresas e famílias serão bastante modificados daqui para frente. A exemplo do ocorrido em tempos similares de ruptura da história do capitalismo moderno, estamos, neste momento, diante de mudanças substanciais nas relações entre capital, trabalho e tecnologia. Desta vez, abrangendo países do Ocidente e do Oriente, de maneira simultânea e instantânea, em “real time”. Definitivamente, acabou o século XX.

Na década de 2020, haverá não apenas a criação de novos processos de produção e distribuição de bens e serviços, mas também o lançamento de novos produtos. Home Office e digitalização de diversas atividades econômicas serão práticas crescentes no quotidiano, assim como a construção de cenários e o desenvolvimento de análises e indicadores preditivos, baseado na utilização de séries históricas e banco de dados. Afinal, o medo do surgimento de novos vírus e pandemias continuará integrando a ação de empresas e consumidores no médio e longo prazo, que pretendem estar melhor preparados para reagir frente a alterações bruscas de mercado como as impostas pela Covid-19.

No caso do Brasil, mantém-se a expectativa de que suas atividades econômicas, em particular da indústria e do setor de serviços, permaneçam com fraco dinamismo até o final deste ano, em função, entre outros fatores, da maior dificuldade de sua população, em relação à de outros países, em cumprir regras de isolamento social que diminuam a circulação do coronavírus.

O desafio do País, porém, não está colocado apenas no horizonte mais imediato. Cabe reverter a tendência estrutural de declínio do nível de utilização da capacidade de sua indústria, que se acentuou com a pandemia, evidentemente (ver gráfico abaixo). Espera-se que a possibilidade, posta agora, de elaboração de melhor planejamento do futuro do setor venha a se concretizar, pautada não apenas pelo senso de urgência, mas também pela disponibilidade de maior tecnologia para tanto.

 

The potential of a bioeconomy to reduce Brazilian GHG emissions towards 2030: a CGE-based life cycle analysis

JamesDeMers ‘s picture by Pixabay

In order to reduce emissions, Brazil has three main pillars:

  • Increasing the share of biomass in the total primary energy supply to 18%,
  • Reducing deforestation, and
  • Achieving 45% of renewable energy in the energy mix.

An analysis by Pedro G. Machado, Marcelo Cunha, Arnaldo Walter, André Faaij e Joaquim J. M. Guilhoto.

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