Compra de títulos pelo BC pode evitar colapso bancário

Entrevista de Geraldo Biasoto para Poder 360


O doutor em ciência econômica pela Unicamp Geraldo Biasoto Junior, 58 anos, defende que o Banco Central compre títulos privados no mercado secundário. Isso será permitido pela PEC do Orçamento de guerra, que ainda precisa ser aprovada pela Câmara novamente. É preferível socorrer as empresas, diz, do que ter que lidar com 1 colapso nas linhas de financiamento dos bancos.

Biasoto Junior atuou como coordenador de política fiscal do Ministério da Economia no 1º mandato do agora ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), para quem também foi secretário de Investimentos no Ministério da Saúde.

Leia trechos da entrevista:

  • Medidas trabalhistas – “As negociações entre trabalhadores e empresários resolvem problemas individuais. Mas macroeconomicamente são desastrosas. Podem desencadear o desemprego pela grande queda no consumo“;
  • Orçamento de guerra – “É necessário porque destrava as condições para se realizar o gasto em uma hora que exige resposta rápida. E permite também a flexibilização da Regra de Ouro“;
  • Debêntures – “É importante que o BC entre para adquirir os títulos que perderam valor pela crise. Isso viabiliza que os fundos consigam pagar os seus cotistas“;
  • Estado intervém ou não – “Nos países mais desenvolvidos, o Estado está presente nos setores necessários. Os EUA investem em pesquisas de comportamento e inovação. Isso traz diferença em 1 período traumático.

Indicadores da economia desabam com o coronavírus

Entrevista de Fabio Silveira para Fátima Fernandes em Varejo em Dia


Não se tem notícia na história recente do país de mudanças tão drásticas e em tão pouco tempo de projeções macroeconômicas.

Há cerca de um mês, as estimativas para a economia brasileira em 2020 eram mais ou menos essas, de acordo com a equipe de economistas da MacroSector Consultores.

PIB (Produto Interno Bruto) crescendo 1,5%, inflação próxima de 4,5% e taxa básica de juros, a Selic, de 2,75% ao mês.

As perspectivas eram de o varejo crescer perto de 2%, e indústria não crescer ou registrar queda de 1% sobre 2019.

A massa salarial caminhava para uma alta de aproximadamente 1% e a taxa de desemprego para permanecer entre 11% e 12%.

Na pior das hipóteses, o déficit primário atingiria algo perto R$ 120 bilhões.

Com a pandemia do novo coronavírus, que resultou no isolamento social e no fechamento de lojas, bares, restaurantes, shoppings e cinemas, os números são outros.

O PIB deve cair perto de 5%. A inflação e a taxa Selic devem ser menores, de 4% e 2,25% ao mês, respectivamente.

O varejo deve registrar queda de 4% e a indústria, de 7%.

O déficit primário deve atingir R$ 420 bilhões, algo impensável especialmente para o ministro da Economia, Paulo Guedes, que focou a sua política na redução de gastos públicos.

Com as demissões que já começaram a mostrar as caras, a massa salarial deve cair 2,5% e a taxa de desemprego pode bater em 18%.

A inflação cai mais do que o previsto por conta da redução dos preços do petróleo, e como consequência, das commodities agrícolas.

O preço do petróleo entra na formação de preços de vários produtos comercializados no país.

“O preço internacional do petróleo vai cair muito. Além da guerra comercial entre a Rússia e a Arábia Saudita, enfrentamos há 45 dias o congelamento da economia global”, afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector.

As atividades de diversos setores da economia foram interrompidas com efeito em cadeias produtivas em todo o mundo.

“As pessoas e as empresas estão tentando saber como sair desta enrascada.”

A taxa Selic deve cair porque o governo pretende reduzir o custo de financiamento para as pessoas e as empresas, especialmente para pequenas e médias.

Os governos federal e estadual também devem injetar recursos (perto de R$ 150 bilhões) na economia para evitar uma quebradeira generalizada de empresas.

Os Estados Unidos devem injetar US$ 2 trilhões na economia, uma tentativa arrojada, de acordo com Silveira, e nunca vista na história, para reativar a economia.

“O mundo depende da reativação da economia chinesa e norte-americana. E o grande enigma hoje é o que ocorrer na China, em Wuhan. Espera-se que não tenha nova onda de contágio.”

Com salários mais baixos e até famílias sem salário, varejo e indústria vão ter desempenho ruins em 2020.

Se a proliferação do novo coronavírus for controlada, com o surgimento de medicamentos e vacinas para tratar e evitar a doença, 2021 pode ser um ano um pouco melhor para o Brasil.

Em seu relatório divulgado neste mês, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta um crescimento de 2,9% do PIB brasileiro no ano que vem.

Este número é até maior do que os 2,3% que previa para o Brasil em janeiro deste ano.

“A injeção de recursos para salvar as famílias e as empresas devem provocar um crescimento maior da economia em 2021.”

Se a projeção do FMI se confirmar e o Brasil crescer perto de 3% no ano que vem, ainda estará em ritmo abaixo de 2019.

Nunca em sua história, o Brasil enfrentou uma queda de PIB de 5% em um único ano, como se prevê para este ano.

Recessão à vista!

Por Fábio Silveira


Ainda atordoados, muitos investidores já se despiram das vestes ultraliberais, trajadas até fevereiro passado, passando a exibir o último protótipo neokeynesiano, lançado às pressas na temporada de inverno no hemisfério norte. Em tempos de pandemia de coronavírus (Covid-19), é mais prudente repaginar outro modelo “clássico” da teoria econômica para que nações, sociedades e instituições se mantenham em pé, justificando a antiga citação francesa de que “il faut que tout change pour que tout rest comme avant” (é necessário que tudo mude para que tudo continue como antes).

Ao contrário do ocorrido na crise americana de 2008, quando o sistema financeiro entrou em colapso antes do setor produtivo, a rápida propagação da Covid-19 acendeu o alerta de que as atividades do mundo real (indústria, comércio e serviços) poderiam ser interrompidas por vários meses, solapando, logo em seguida, os alicerces e as funcionalidades de bancos e afins.

Percebendo o poder de destruição de riqueza que vinha no rastro dessa pandemia, Washington partiu para mais uma guerra. Em março, decidiu mobilizar US$ 2,0 trilhões em crédito e gastos públicos para atenuar os enormes danos que atingiriam diretamente empresas e famílias americanas. Trata-se da mais arrojada iniciativa de expansão de consumo e investimento feita por um governo na história, implicando em uma injeção de recursos 2,5 vezes maior do que a realizada para debelar a crise de 12 anos atrás.

A China vem adotando, também, programas de incentivo monetário e fiscal, ao mesmo tempo em que procura resgatar o quotidiano das cidades, que sofreram duramente com os impactos da pandemia em janeiro e fevereiro, pautando-se pela hipótese de que “o pior já passou”.

Como nas crises globais das décadas de 1990 e 2000 (asiática, russa, americana etc.), a economia brasileira será diretamente prejudicada. Devido à grande magnitude do atual “choque de oferta”, os volumes de renda e emprego tendem a diminuir drasticamente nos próximos meses, mesmo considerando os efeitos positivos das medidas recentes implementadas pelo Governo Federal e Banco Central, que visam transferir renda às famílias e facilitar o acesso ao crédito às empresas, principalmente às pequenas.

Na história da economia mundial, é a primeira vez que múltiplas e interligadas cadeias de produção e comercialização são interrompidas, de forma simultânea e abrupta, esterilizando parte do fluxo monetário regular, em escala internacional e doméstica. Desse modo, tal como visto em outros países afetados pela Covid-19, o Brasil ingressará num período de forte contração de lucros, salários e tributos nos segundo e terceiro trimestres.

Em função de suas características operacionais, as cadeias produtivas mais prejudicadas serão aquelas cuja demanda interna é muito influenciada pela evolução dos níveis de emprego, salários e crédito ao consumidor, tais como as de alimentos e bebidas, produtos têxteis e de vestuário, calçados, eletrodomésticos, eletroeletrônicos e automóveis.

Por outro lado, espera-se por maior preservação da receita, em reais, de exportadores de commodities agrícolas (soja, milho, café, açúcar, carnes etc.), considerando que, em 2020: a) a taxa média de câmbio deve subir 22% em relação ao ano passado, atingindo R$ 4,82 / US$; e b) a queda dos preços, em dólar, dessas commodities no mercado externo será proporcionalmente menor que a alta do dólar, uma vez que a disseminação do coronavírus tende a elevar, em escala global, a procura por alimentos e a formação de estoques “defensivos”.

De todo modo, no fechamento deste ano, os principais setores econômicos do país apresentarão forte retração de suas atividades. Para o caso da indústria, por exemplo, projeta-se que sua produção terá declínio de 7% frente a 2019.

Produção industrial 2020: previsão de queda de 7%

Fonte: Pesquisa Industrial Mensal – IBGE. (P) Projeção MacroSector Consultores

Se o retorno às atividades econômicas na cidade chinesa de Wuhan (primeiro epicentro da pandemia) neste trimestre não vier acompanhado por uma segunda onda de contágio pelo coronavírus, é razoável admitir que a economia brasileira (e a mundial) poderá iniciar sua recuperação no final de 2020. Além disso, no país, é necessário que as políticas públicas tenham maior unicidade no combate à pandemia.

Após a brusca parada, desorganização e “perda de memória do conteúdo” de várias etapas dos processos produtivos, espera-se que a futura retomada econômica resulte em uma reconstrução gradual da lógica desses processos. Como em outras grandes crises cíclicas, a superação da fase recessiva vai requerer a busca por índices mais elevados de produtividade da indústria, do comércio e dos serviços, o que será alcançado mediante a intensificação do uso de tecnologia e de mão de obra qualificada.

Receita das lavouras brasileiras deve crescer 15% nesta safra

Pandemia de coronavírus não deve interferir diretamente nos resultados de soja, milho, laranja, café e arroz

Entrevista de Fabio Silveira para Globo Rural


A receita nominal das lavouras brasileiras deve ter um avanço de até 15% sobre os resultados obtidos o ano passado, chegando a R$ 460 bilhões.

A projeção foi divulgada pela consultoria especializada MacroSector, com base em dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

O resultado, de acordo com o economista Fabio Silveira, será sustentado pelo desempenho das lavouras de soja e milho, principalmente. Segundo ele, a receita agrícola para a soja, em 2020, deve crescer 18,4% em relação a 2019 e atingir R$ 183,4 bilhões, considerando a previsão de aumento de 8,7% da safra 2019/2020 e de 8,9% para o preço interno.

Já o milho tende a subir 21,8%, alcançando R$ R$ 77,7 milhões. “É um reflexo da majoração de 27,4% do preço doméstico e a redução de 4,4% da produção”, apontou Silveira.

Laranja, café e arroz em alta

Outras lavouras também devem ter receita elevada em 2020. Uma delas é a laranja, com elevação de 16,5%, atingindo R$ 35,6 bilhões, considerando uma expectativa de alta de 11,7% do preço interno e 4,2% da produção.

O café também entra nesta lista, com avanço de 32,4% e receita de R$ 20,7 bilhões, baseado na projeção de subida de 17,1% no preço doméstico e a safra 13,1% maior.

Já o arroz deve crescer 22,5%, atingindo R$ 12,9 bilhões de acordo com a expectativa de alta de 21,3% do preço do produto e safra 1% maior.

Por outro lado, o feijão tem projeção de declínio de 16% em relação ao ano passado, situando-se em R$ 80 bilhões. Os dados foram projetados com base na previsão de baixa de 17,2% no preço do grão e aumento de 1,7% na produção.