Consumo das famílias perde fôlego e economistas cortam projeções para 2018

Entrevista de Fabio Silveira para O Estado de São Paulo


Motor do PIB. Desemprego, greve dos caminhoneiros e incerteza eleitoral reduziram a intenção dos consumidores de ir às compras e fazer financiamentos; Banco Central já revisou de 3% para 2,1% a previsão para o crescimento do consumo neste ano

O consumo, que surpreendeu no ano passado ao puxar o crescimento do País e era considerado o motor da retomada em 2018, perdeu fôlego. O desemprego, ainda elevado, já vinha segurando os gastos das famílias, mas a greve dos caminhoneiros piorou o cenário, minando a confiança de empresários e consumidores. Eles reduziram a intenção de ir às compras e de fazer financiamentos. Nas lojas, o número de mercadorias encalhadas aumentou.

Nas últimas semanas, economistas cortaram suas projeções para o crescimento do consumo em 2018. No relatório de junho, o Banco Central reduziu de 3% para 2,1% a projeção de alta para os gastos das famílias no ano. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) também reviu a previsão: de 3,4% para 2,3%. A consultoria MB Associados reduziu de 3,5% para 2,6% a expectativa de crescimento do consumo. A mesma redução foi feita pela GO Associados.

Sozinho, o consumo das famílias representa mais da metade do Produto Interno Bruto (PIB) e seu enfraquecimento pode comprometer a retomada econômica. “O mercado doméstico tem o maior peso na recuperação e de fato há uma expectativa pior sobre ele agora”, diz o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. O consumidor, diz, tende a ficar mais ressabiado, especialmente com o risco eleitoral no segundo semestre.

Segundo Nicola Tingas, assessor econômico da Acrefi, que reúne as financeiras, a greve dos caminhoneiros “acendeu uma luzinha amarela e o conjunto do ambiente econômico reforçou o sentimento de cautela”. Ele diz que a procura de crédito para financiar produtos de maior valor parou, o que levou as empresas do setor a cortarem a expectativa de alta na demanda de crédito de 7% para 5% neste ano. Em 2017, a alta foi de 5,2%.

Para o diretor da consultoria MacroSector, Fabio Silveira, o que está travando o crescimento do varejo e do consumo é o elevado custo do crédito para empresas e consumidores. “O que impede o maior dinamismo do comércio neste ano é a redução modesta dos juros ao consumidor.”

Dados do BC mostram que, entre dezembro de 2016 e maio deste ano, os juros básicos caíram mais de 50% e a taxa ao consumidor teve um corte bem menor, de 25%. “A redução dos juros para as pessoas físicas é marginal em relação à redução da taxa básica de juros”, diz Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

Apesar de o cenário jogar contra uma alta mais acelerada do consumo das famílias, economistas apontam alguns fatores que podem trazer alívio no orçamento. Entre eles, estão a devolução do PIS/Pasep e a indenização dos bancos a poupadores que tiveram perdas com planos econômicos. Em conjunto, devem injetar R$ 50 bilhões na economia.

“Brasil cresceria 4%, se juro do crédito caísse como a Selic”

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia.


O Brasil ocupa a sétima posição no ranking de juros reais, com uma taxa de 2,91% ao ano, de acordo com o site MoneYou, em parceria com a Infinity Asset Management.

Essa taxa real, que considera a expectativa de inflação de 12 meses seguintes, é maior do que a de países como Indonésia, Índia, México, Rússia e Turquia.

A vizinha Argentina tem uma colocação ainda pior. Aparece no topo do ranking com uma taxa de juros reais de 23,89% ao ano.

Não é de hoje que o Brasil possui uma das maiores taxas de juros reais do planeta, mas a boa notícia é que ela vem diminuindo, pelo menos até agora.

Nos últimos 29 meses, a taxa básica de juros da economia brasileira caiu 54%, de 14,3% para 6,5% ao ano.

O financiamento para o consumidor caiu menos,11%, de 143% para 127% ao ano. E o juro para capital de giro encolheu 31%, de 30% para 21% ao ano.

Algumas perguntas sempre surgem quando esses dados são divulgados pelo Banco Central (BC).

Por que os juros cobrados pelos bancos não caem na mesma proporção que a Selic, a taxa básica de juros da economia?

Se os juros para as pessoas físicas e jurídicas também seguissem a Selic, como estaria hoje a economia brasileira?

varejoemdia.com fez essas e outras perguntas para o economista Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores. Veja abaixo o que ele diz sobre o tema.

SELIC X JUROS DE MERCADO

“O custo do financiamento para o consumidor e para as empresas cai menos do que a Selic porque há pouca concorrência bancária no Brasil, diferentemente do que acontece nos Estados Unidos e na Europa.

As taxas são altas por aqui porque a ineficiência do sistema financeiro é repassada para o tomador de crédito, e não há firmeza na atuação do Banco Central para a redução dos juros.

Há décadas se fala em ter no mercado brasileiro um cadastro positivo para os consumidores.

Essa seria uma forma de separar o bom do mal pagador, daquele que atrasa o pagamento, mas isso não foi colocado em prática.

Não existe solidariedade entre a cadeia de comercialização e de oferta de crédito, um outro problema que o país enfrenta.

Na Flórida (EUA), por exemplo, todos aqueles que têm interesse no mercado de suco de laranja, setores público e privado, trabalham de forma convergente. Aqui não se observa isso, é cada um para o seu lado.

É preciso reduzir o juro para o bom pagador. O BC não tem firmeza para agir como uma agência reguladora, e essa falta de firmeza impede a redução de juros para os consumidores.

A taxa de juros do jeito que está vai arrastar a economia brasileira para um crescimento pífio neste ano, de 1% a 1,5%.

O varejo deve crescer 2,3%. E esses números estão sujeitos a mudanças em função do quadro de instabilidade que o país vive.”

JUROS BAIXOS X PIB

“Se as taxas de juros do mercado caíssem na mesma proporção que a Selic, muito provavelmente, o PIB (Produto Interno Bruto) do ano passado teria crescido 1,5% a 2%, não 1%.

Isso permitiria o país entrar em 2018 com um ritmo de atividade maior e com uma expectativa de expansão do PIB de 4% para 2018.

O desemprego no Brasil é elevado, mas é consequência, não causa.

Com uma taxa de juros menor para o consumidor, o varejo teria crescido até 5% no ano passado e o desemprego não seria de 14 milhões de pessoas. Isso é matemático.”

JUROS E TAXA DE CÂMBIO

“Existem dois preços fundamentais na economia: taxa de câmbio e juros.

Por que a economia afundou em 2017? Porque a taxa de juros ficou alta e a taxa de câmbio não ficou estável – atualmente está próxima de R$ 4.”

MAIS CONCORRÊNCIA

“Facilitar a entrada de bancos estrangeiros no país é uma forma de elevar a concorrência, o que poderia resultar numa redução dos juros no mercado brasileiro.

É preciso acelerar esse processo. Outros atores, como as fintechs, fundos de crédito, já estão começando a mexer com o mercado, mas com impacto ainda pequeno.

Nos Estados Unidos, há centenas de bancos que concorrem no mercado de crédito. Resultado: a taxa básica de juros por lá é de 1% ao ano, com taxa de desemprego ao redor de 3,9%.”