Consumidor ‘ficha limpa’ deve sustentar o consumo em 2019

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia. 


Numa economia com instabilidade política, inflação alta, dólar caro e juros elevados é praticamente impossível fazer projeções otimistas para o consumo.

Economistas e representantes do governo, aliás, estão revendo para baixo o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que não deve passar de 2,5% em 2018.

Tudo indica que as famílias vão continuar restringindo os gastos e, portanto, as lojas vão vender menos e as indústrias, produzir menos.

Mas em meio a todo esse ambiente desfavorável ao consumo há um indicador capaz de deixar os lojistas mais otimistas em relação aos negócios a partir de 2019. Leia mais.

Comércio cresce, mas consumidor está mais seletivo

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia.


Encher o tanque do carro ou o carrinho do supermercado? Comprar roupas, eletrodomésticos ou remédios? Não tem jeito, o brasileiro está mais seletivo na hora de gastar.

A inflação em alta (em junho o IPCA chegou a 1,26%, o maior desde 1995 para o mês), a falta de confiança na melhora da economia e a perspectiva de renda e salário se recuperarem em ritmo lento explicam parte desse comportamento do brasileiro.

Os dados do varejo de maio, divulgados pelo IBGE, revelam o impacto da compra mais “seletiva” do consumidor em todo o comércio.

Os resultados desiguais entre os oito grupos analisados na pesquisa mensal de vendas do setor refletem como diferentes segmentos do varejo reagiram à paralisação dos caminhoneiros, absorveram os efeitos da alta do dólar e enfrentaram a escolha mais rigorosa dos consumidores.

Cinco deles tiveram resultados negativos enquanto três se mantiveram no azul na comparação dos resultados em maio deste ano sobre igual mês de 2017.

Enquanto a venda de combustíveis caiu 7,9%, a de produtos vendidos em super e hipermercados cresceu 8,5%.

A venda de eletrodomésticos recuou 3,3%, assim como a de tecidos, roupas e calçados, com queda de 3,6%.

No grupo de itens farmacêuticos, perfumaria e higiene, as vendas avançaram 4,5%.

“O consumidor está claramente fazendo escolhas para gastar”, diz o economista Fabio Silveira, sócio-diretor da consultoria MacroSector.

Com esse cenário, o Banco Central reviu suas projeções de consumo em seu relatório de junho e cortou de 3% para 2,1% a previsão de alta para os gastos das famílias no ano.

“A pequena melhora nos salários neste ano e no nível de pessoal ocupado, e o crédito em patamar um pouco maior neste ano do que em 2017 está fazendo com que o consumidor despeje um pouco mais de recursos no comércio”, afirma.

Na média dos oito segmentos pesquisados, as vendas do comércio subiram 2,7% em maio sobre o mesmo mês de 2017.

A consultoria prevê crescimento do comércio para 2,5% neste ano – um ponto percentual abaixo do que inicialmente projetava no início de 2018. No ano passado, o setor cresceu 2,1%.

“A greve de 11 dias dos caminhoneiros em maio desorganizou o sistema produtivo e a distribuição de mercadorias afetando o abastecimento no país. Mas o câmbio no patamar de R$ 3,80 a R$ 3,90 teve forte impacto no preço de vários insumos, principalmente no de combustíveis e explica em parte até a queda no consumo”, diz Silveira.

Por região, houve aumento no volume de vendas em 20 das 27 unidades do país, segundo os dados do IBGE. Os destaques positivos foram para Roraima (11%), Amazonas (9,3%) e Rio Grande do Norte (9%).

Na contramão,  Distrito Federal (-2,5%) e Mato Grosso (-2,1%) tiveram  as taxas negativas mais elevadas .

Para o diretor da MacroSector, o nível relativamente controlado de inadimplência do consumidor deve evitar desempenho mais fraco do comércio varejista neste ano e sustentar as vendas.

IMPACTO

A CNC (Confederação Nacional do Comércio) também revisou para baixo a projeção de crescimento do varejo ampliado, categoria que considera dez segmentos do comércio, incluindo a venda de veículos/autopeças e de material de construção.

O que fez a entidade rever sua expectativa, de 5% para 4,8%, foi o impacto da paralisação dos caminhoneiros em maio. O setor teve queda nas vendas de 4,9% no mês, o que representou perda de R$ 7,4 bilhões.

Foi a primeira queda do ano e o pior resultado para meses de maio em mais de 15 anos de levantamentos da série, segundo o economista Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da CNC.

“Embora as significativas quedas provocadas pelas paralisações de maio estejam restritas ao terceiro bimestre de 2018, dificilmente o ritmo de vendas verificado nos cinco primeiros meses do ano (6,3% ante o período de janeiro a maio de 2017) se manterá no segundo semestre”, afirma Bentes.

Inflação alta deve enfraquecer poder de barganha do varejo

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia.


É difícil encontrar comerciantes otimistas em um país com 13,7 milhões de desempregados, incertezas políticas, carga tributária elevada e com as maiores taxas de juros do mundo.

Se não está fácil faturar nesse ambiente, outro indicador, divulgado neste mês, sugere que os lojistas vão ter que rebolar ainda mais para vender neste segundo semestre.

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de junho deste ano, de 1,26%, foi o maior desde 1995 para o mês de junho, quando bateu em 2,26%.

Uma inflação deste tamanho, como já se viu no passado, corrói demais o rendimento das famílias, de tal modo que fica impossível manter o padrão de consumo.

Nos últimos 12 meses, com os preços mais controlados, o rendimento das famílias teve aumento real de cerca de 2%. Uma inflação ao redor de 1% destrói metade do que se ganhou em um ano.

Se o cliente não compra, o comerciante não fatura e não compra da indústria. A economia cresce menos, gerando um círculo que provoca depressão da atividade econômica.

Para Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, o IPCA de junho revelou uma ruptura do padrão da inflação do país, o que é ruim para toda a economia.

Nos últimos 12 meses, a inflação estava na faixa de 0,30% a 0,35% ao mês. Em junho do ano passado, o IPCA foi negativo – deflação de 0,23%.

“Parte do mercado entende que essa alta de 1,26% do IPCA em junho não se repete em julho. Pode não se repetir, mas também não cai para os padrões dos últimos 12 meses”, diz.

Para Silveira, a inflação de julho deve ficar entre 0,6% e 0,7%, o que é considerada ainda muito alta, como reflexo do represamento de preços dos atacados durante a crise.

“1% de inflação ao mês corrói os salários de uma forma absurda”, afirma.

Se persistir, a inflação alta vai ter impacto significativo no PIB (Produto Interno Bruto).

No início do ano, os economistas mais otimistas projetavam crescimento de até 3% para o PIB neste ano. “Agora se fala em 1% para 2018 e 2,5% para 2019”, diz Silveira.

Alimentos e bebidas, transportes e habitação são três dos setores que estão mais pressionando a inflação. E são justamente esses com maior impacto no orçamento das famílias.

QUEDA DE BRAÇO

Com esse cenário, as negociações de preços entre as indústrias e os lojistas têm tudo para endurecer neste semestre, de acordo com Silveira.

De um lado existe a pressão das fábricas para repassar os reajustes dos combustíveis, da energia elétrica e de produtos que sofrem a influência do dólar, que está mais caro.

Na outra ponta está o lojista lutando para evitar reajustes de preços, até porque sabe que só consegue movimento maior na loja quando reduz os preços.

O fato é que, numa economia enfraquecida, geralmente, diz o economista, o varejo perde força.

“As negociações vão depender do setor e do produto. Se é algo essencial e há muitos fornecedores, o poder de barganha do varejo aumenta. Caso contrário, a força fica do lado da indústria”, diz ele.

Nelson Tranquez, sócio-diretor da Loony Jeans e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Bom Retiro, diz que as confecções já sentem a pressão para a alta de preços das tecelagens.

As fábricas de tecidos aumentaram em 6% a 8% os preços neste ano. Há casos de reajustes na casa de dois dígitos.

“São poucas as indústrias de jeans com qualidade no Brasil. As confecções tentam buscar alternativas, mas nem sempre conseguem achar bons fornecedores”, diz ele.

O que deve se observar numa situação como esta de inflação alta, no caso dos alimentos, é o processo de downgrading de marcas. Isto é, a troca de marcas mais caras por mais baratas.

Para Silveira, o cenário econômico hoje no país, de qualquer forma, não é tão tenebroso como o dos últimos anos da crise, quando indústrias e fábricas tiveram de fechar as portas.

“No início do ano, os indicadores apontavam para uma melhora da economia, só que este horizonte ficou menos animador.”

CUSTOS E RECEITA

Para driblar esse cenário, que pode também piorar com a instabilidade política em véspera de eleições, os lojistas têm de ter sob controle custos e receita, ser criativo, ter bem claro os desejos do público que deseja atingir.

“Não adianta vender de tudo para agradar todo o mundo. É preciso identificar preferencias em alimentos, vestuário, eletrônicos, e estar atento ao que acontece no mundo, não apenas no mercado nacional”.

Para Silveira, os lojistas brasileiros são acomodados e pouco mobilizados para cobrarem, por exemplo, maior concorrência no mercado de crédito para o consumidor.

Ficam as dicas!

Produção de carros só deve deslanchar em 2020

Entrevista de Fabio Silveira para o Portal Varejo Em Dia.


O setor automotivo, um dos mais importantes do país, deve recuperar somente em 2020 o ritmo de crescimento verificado em 2017, ano em que a produção de veículos teve expansão de 25,2%, depois de amargar uma crise que durou três anos.

A análise é do economista Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, que reviu a projeção de crescimento do setor de 13% para 10% neste ano, após o cenário de incertezas políticas e da queda das exportações para a Argentina e o México, os dois principais mercados para o Brasil.

A Anfavea, associação que reúne os fabricantes de veículos, também revisou para baixo a sua expectativa da produção neste ano, de 13,2% para 11,9%.

Para as exportações, a previsão da entidade passou de alta de 4,5% para estabilidade sobre o total de 766 mil veículos vendidos para o mercado externo em 2017.

Em junho, a produção de autos teve alta de 21% sobre o mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados na última sexta-feira (dia 6) pela Anfavea. O percentual inclui carros, comerciais leves, caminhões e ônibus.

“O crescimento de junho reflete ainda a orientação feita pelas montadoras no início deste ano, quando a situação era outra. A compra de insumos estava feita, a produção planejada e a confiança do consumidor e dos empresários estava em outro patamar”, diz Silveira.

O nível de expansão visto no mês passado, porém, não deve se manter no segundo semestre, com o aumento das incertezas políticas e econômicas.

“As dúvidas quanto à evolução da taxa de câmbio, dos juros e alta da inflação, para a qual já vínhamos chamando a atenção desde maio, devem arrefecer o crescimento da produção daqui para frente”, afirma o economista.

Para Silveira, a partir do próximo mês os efeitos da greve dos caminhoneiros também devem se mostrar mais significativos nos indicadores do setor. “O dado de julho deve ser decepcionante.”

AQUI X LÁ FORA

O aumento da produção neste ano será sustentado pela venda de carros no mercado interno, uma vez que as exportações no setor estão se enfraquecendo.

As vendas para fora do país em 2018 devem ficar longe dos resultados obtidos em 2017, quando as exportações cresceram 46,4% na comparação com o ano anterior.

Os indicadores do mês passado já dão sinais disso. A queda nas vendas para o exterior foi de 4,4% em junho na comparação com igual mês de 2017.

A Argentina, maior mercado de veículos brasileiros, elevou os juros básicos da economia para 40% no início de maio, o que encareceu o financiamento e impactou diretamente na decisão de compra do consumidor.

Os efeitos já estão sendo computados. No país vizinho, as vendas internas de veículos desabaram 31% em junho na comparação com o mesmo mês de 2017, de acordo com a Adefa, associação que reúne as montadoras argentinas.

Sete em cada dez veículos vendidos para fora hoje são destinados para o mercado argentino.

“Apesar de o câmbio no Brasil estar valorizado, o que aumenta a competitividade da indústria exportadora, a economia da América Latina está perdendo dinamismo, atingindo diretamente as vendas de carros brasileiros”, afirma Silveira.

O México, segundo maior mercado para o Brasil, teve redução de 6% nas vendas em junho sobre igual mês de 2017 e de 8,4% no acumulado deste ano, de acordo com a Amia, associação das montadoras mexicanas.

PREÇOS EM ALTA

Para Fabio Silveira,  2019 não será ainda o ano de retomada das vendas internas e externas em patamares maiores. O crescimento mais vigoroso só deve acontecer mesmo em 2020.

“A taxa de câmbio mais elevada vai encarecer os insumos e afetar diretamente o preço dos veículos, desestimulando e postergando a compra no mercado interno”, diz.

Essa tendência de encarecimento do preço do carro, associada ao clima de menor confiança do consumidor e ao crédito menos aquecido, vai desacelerar ainda mais as vendas no próximo ano, explica o sócio-diretor da MacroSector.

Com isso, a  previsão para 2019 é o setor crescer entre 7% e 8%, de dois a três pontos percentuais abaixo da expectativa para 2018 (10%).

VENDAS INTERNAS

A venda de carros em junho chegou a  201.987 unidades, o que representa alta de 3,7% em relação a junho de 2017, quando 194.796 unidades foram comercializadas, segundo dados da Fenabrave, a federação que reúne os revendedores de veículos.

Em relação ao mês de maio, as vendas ficaram estáveis. O setor ainda deve demorar para recuperar as perdas de 2016 e 2015, ano em que o desemprego aumentou, a renda caiu e muitas concessionárias fecharam as portas.

Um balanço divulgado pela Fenabrave mostra que nos últimos quatro anos a rede de concessionárias brasileira enxugou de 7.330 pontos para 6.056. Foram fechadas 1.890 revendas e abertas 616 novas concessionárias, o que representa saldo negativo de 1.274 lojas.