O Oriente Médio afeta o Brasil?

O impacto do preço do petróleo na economia brasileira.

Por: Roberto Nemr

 

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Existe uma correlação entre Oriente Médio e Brasil, apesar de passar desapercebida, a começar pelo petróleo.  O grande movimento de alta do petróleo, no período 2007-2014, época em que o preço permaneceu próximo de U$100/boe, foi um momento de grande liquidez de petrodólares. Os países produtores reciclavam essa liquidez comprando ativos globais, inclusive do Brasil.

O Brasil também se tornou um produtor importante. Os investimentos de sua principal empresa, a Petrobras, escalonaram.  A taxa de câmbio se valorizou,  provocando uma comoditização de nossa pauta comercial, permitindo um forte movimento de corrupção  que se intensificou com o aumento do valor da principal empresa estatal.

Nos anos 70, o Brasil era um importador importante de petróleo.  Nesta época os preços saíram de US$2 para US$12/boe, e mais para o final da década para US$40/boe, desencadeando um problema sério em nossas contas externas, financiadas justamente pelos petrodólares reciclados no sistema financeiro mundial. A aceleração da inflação nos USA foi a cereja no bolo que levou os juros a subirem significativamente, terminando de quebrar o Brasil.  Esse movimento nos custou os anos 80, que ficaram imersos em falta de dólares e inflação crônica.

Só saímos desse processo após a queda dos juros americanos e o Plano Brady de renegociação dos títulos da dívida. Hoje a questão é outra. A queda dos preços das commodities desacelerou a economia, mostrando um belo rombo fiscal. Os países do Oriente Médio vivem situação semelhante, pois o grosso da arrecadação vem das receitas das petrolíferas. Crise econômica gera crise política, mas como os produtores de petróleo são ditaduras bem estabelecidas os conflitos se transfiguram em outros lugares.

Por exemplo, a guerra na Síria e no Iêmen, que são países de produção petrolífera muito baixa e nível de pobreza alto, são guerras veladas entre Arábia Saudita e Irã, inimigos históricos e não por coincidência ditaduras teocráticas. São o primeiro e o segundo produtor de petróleo bruto na região, respectivamente.  A guerra no Iraque, o terceiro produtor, também se transmudou em conflito sunita-xiita, por encomenda.

Os Estados Unidos, que eram grandes importadores de petróleo, com o crescimento vertiginoso do gás de xisto, quase equilibram sua demanda, o que torna o seu interesse em participar dos conflitos no Oriente Médio mais limitado, a não ser como vendedor de armas, como prova o recente contrato de Donald Trump com a Arábia Saudita, de US$350 bilhões a longo prazo.  A Arábia Saudita está se armando preventivamente e o grande inimigo do outro lado do Golfo sabe disso.

 

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O Brasil pode não passar de um grande exportador de carne e outros produtos agrícolas para os países do Oriente Médio, mas tudo o que se passa na região tem um efeito indireto ou direto sobre nós, seja através do preço do petróleo, seja através do aumento da aversão ao risco. O ponto positivo é que as duas potências regionais e a terceira, Israel, ainda não se engajaram em uma guerra entre si, o que seria bem mais disruptivo.

De qualquer forma desde o primeiro choque do petróleo, tivemos: guerra de Yom Kippur, guerra do Líbano, guerra Irã-Iraque, invasão do Kuwait, primeira guerra do Golfo, guerra do Afeganistão, segunda guerra do golfo, guerra Líbano-Israel, primavera-outono árabe, guerra da Síria, do Iêmen e agora ameaça da Arábia Saudita contra o Catar. Se você acha que tudo isso tem a ver com o petróleo, acertou.  É só lembrar da euforia de Lula em 2008, com a descoberta do pré-sal e da nossa situação atual, e acompanhar o desempenho do petróleo brent nos mercados internacionais.

Se o petróleo é uma dádiva divina, o Diabo faz sua parte ao tornar a maioria dos países exportadores (honrosa exceção da Noruega e Canadá) em anti-exemplos de governança. Basta lembrar de nosso vizinho do norte, a Venezuela, outrora o país mais rico da América Latina.

Economia resiste à piora da crise política

10/07/2017 às 05h00 | Por Marta Watanabe, Arícia Martins e Thais Carrança no Valor Econômico

Quando os índices de confiança deram um salto com a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer na Presidência, em 2016, a economia não reagiu. Agora parece ocorrer o contrário – os índices de confiança desabaram após a delação de Joesley Batista, mas a economia segue em seu lento processo de recuperação. Efeitos mais drásticos sobre emprego e e consumo só devem ocorrer se o quadro de incertezas se prolongar.

Os indicadores de atividade já conhecidos do mês revelam sinais mistos e os relatos de empresas e analistas sugerem que, após o “susto” de maio, persistiu a expectativa de melhora em relação a 2016. “O lado real da economia deu de ombros para a crise política”, afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores.

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Segundo ele, isso acontece porque algumas variáveis importantes seguem sob controle, como a taxa de câmbio relativamente estável, a inflação baixa e o saldo comercial positivo. A situação das contas públicas é “apavorante”, mas os ânimos estão sob controle porque os agentes ainda confiam que os atores políticos vão tratar dessa questão.

Alguns fatores apontam na direção na continuidade da recuperação. Uma queda mais forte do juro ganhou fôlego na sexta-feira, com a deflação do IPCA de junho. A desaceleração da inflação tem impulsionado a recuperação mais rápida que o esperado dos rendimentos do trabalho. Após caírem 2,3% em termos reais em 2016, os salários acompanhados pela pesquisa Pnad Contínua avançaram em média 2,3% entre janeiro e maio, na comparação com o mesmo período de 2016.

A possível saída de Michel Temer, para dar lugar ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), resgata, segundo economistas, alguma esperança de viabilidade das reformas. A combinação de todos esses fatores poderia melhorar a confiança mais adiante. “Maio teria sido mais um soluço do que uma inflexão de trajetória”, diz Borges. Para ele, o PIB do segundo trimestre pode até ter crescido cerca de 0,1% ou 0,2% na margem.

O agravamento da crise política mantém deprimidos os investimentos, desafiados ainda pela grande capacidade ociosa da indústria e pelas incertezas de médio prazo.

Queda da confiança afetou pouco economia real

10/07/2017 às 05h00 | Por Marta Watanabe, Arícia Martins e Thais Carrança no Valor Econômico 

Embora as denúncias envolvendo o presidente Michel Temer tenham ameaçado o quadro de expectativas de melhora mais acelerada da economia sustentado até meados de maio, os efeitos concretos desse quadro sobre emprego, consumo e investimento devem acontecer apenas se o quadro de incerteza se prolongar. Ainda que todos os indicadores de confiança de junho tenham refletido o choque inicial causado pela delação da JBS, os indicadores de atividade já conhecidos do mês revelam sinais mistos e os relatos de empresas e analistas sugerem que, após o “susto”, persistiu a expectativa de melhora em relação a 2016.

 

Além disso, na visão de alguns economistas, novos fatores que começam a surgir no horizonte poderiam reverter o quadro. Um desses novos fatos, uma queda mais forte do juro, ganhou fôlego na sexta-feira passada, com a deflação ainda mais forte do que o esperado na inflação oficial. Outro cenário que também ganhou mais corpo na semana passada é a possível saída de Michel Temer da presidência, para dar lugar ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o que poderia resgatar uma esperança maior de viabilidade das reformas.

 

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O fato de a crise política não ter inviabilizado a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário e a eventual troca de Temer por Maia podem reverter a queda da confiança registrada em junho, amenizando seus efeitos sobre a atividade econômica, avalia a LCA Consultores.

 

Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria, destaca que o comportamento da atividade em junho dá sinais distintos. As vendas de veículos, divulgadas pela Fenabrave, vieram melhores em junho, em relação a maio, considerado o dado dessazonalizado. Por outro lado, a produção de veículos caiu na passagem de maio a junho, segundo a Anfavea, mas também não de maneira expressiva. Produção e consumo de energia andaram de lado, avalia a LCA, enquanto os indicadores de confiança tiveram uma queda “razoável”, à exceção da confiança da construção.

 

Olhando ainda para indicadores do mercado financeiro, como risco e câmbio, que afetam a confiança dos consumidores, Borges ressalta que, num primeiro momento, esses ativos tiveram uma alta acentuada, mas depois se acomodaram num nível mais contido. “É fato que o choque político foi liquidamente negativo, tanto que as projeções de crescimento foram revistas para baixo neste ano e, principalmente, no ano que vem, mas não foi um choque tão expressivo como outros”, disse Borges, citando como exemplo o choque de confiança de meados de 2015, quando o governo anunciou a meta fiscal com déficit primário para o ano seguinte.

 

Nesse cenário, o economista acredita que o PIB do segundo trimestre pode até ter crescido cerca de 0,1% ou 0,2% na margem, no dado dessazonalizado, posto que abril e maio foram anteriores ao choque, com maio surpreendendo na produção industrial, por exemplo, enquanto junho parece ter sido misto.

 

Para o economista da LCA, pode ser que o efeito da queda de confiança verificada em junho mostre reflexos na economia mais adiante, devido à defasagem deste tipo de indicador, mas há dois fatores que jogam em sentido contrário, podendo anular a pressão negativa.

 

O primeiro deles é o fato da crise política não ter inviabilizado a continuidade da redução da taxa básica de juros pelo Banco Central. “Como o Banco Central tem espaço para continuar cortando a Selic e fazendo isso rapidamente, isso tem impacto positivo sobre a confiança”, diz Borges.

 

O segundo fator é uma possível nova transição política. “Toda discussão hoje é que, aparentemente, o Temer caiu e o Rodrigo Maia assume, embora o momento em que isso vai ocorrer seja incerto”, afirma. “Isso pode trazer um novo choque de confiança nos mercados financeiros, porque existe a avaliação de que Rodrigo Maia pode ter condições políticas de retomar uma agenda mínima de reforma da Previdência, algo que hoje, com Temer na presidência, parece estar totalmente descartado”, completa.

 

Assim, a combinação dos dois efeitos poderia fazer com que o choque de confiança observado em junho possa ser revertido já ao longo do terceiro trimestre. “Teria sido mais um soluço do que uma inflexão de trajetória desses indicadores, que vinham melhorando até então”, conclui.

 

Para Fabio Silveira, sócio-diretor da MacroSector Consultores, a economia real praticamente ignorou a crise política devido à confiança dos agentes econômicos de que a classe política deve eventualmente enfrentar a questão fiscal. Mas essa situação não deve durar por tempo indefinido e pode mudar dependendo do desenvolvimento das eleições de 2018.

 

“O lado real da economia deu de ombros para a crise política”, afirma Silveira, à luz dos indicadores iniciais de atividade de junho. Segundo ele, isso acontece porque algumas variáveis importantes seguem sob controle, como a taxa de câmbio relativamente estável, a inflação que segue baixa e o saldo comercial positivo. No entanto, a situação das das contas públicas é “apavorante”, mas os ânimos continuam sob controle porque os agentes ainda confiam que os atores políticos, em algum momento, vão tratar dessa questão.

Preços no atacado acumularam queda em junho, avalia consultoria

Para a MacroSector Consultores, julho também deve ser de mais pressão de baixa
Por: RAPHAEL SALOMÃO

 

Local de venda de hosrtifrutis na Ceagesp, em São Paulo. Preços no atacado caíram em junho, de acordo com a MacroSector Consultores (Foto: Fernanda Bernardino/Ed. Globo)
Local de venda de hosrtifrutis na Ceagesp, em São Paulo. Preços no atacado caíram em junho, de acordo com a MacroSector Consultores (Foto: Fernanda Bernardino/Ed. Globo)

 

Os preços de mercadorias no atacado brasileiro devem encerrar este mês com queda de 2,5%, avalia a MacroSector Consultores, com base em um indicador próprio. Tanto os produtos agrícolas quanto combustíveis, que servem de base para o índice, acumularam desvalorização em junho.

Só na semana encerrada no último dia 23, a redução foi de 1,67%. Os preços agrícolas, que têm maior peso no cálculo, caíram 1,73% no período, de acordo com informe assinado pelo sócio-diretor da empresa, Fábio Silveira.

A consultoria registrou desvalorização de batata (-23,4%), feijão (-8,9%), laranja (-4,4%), café (-4%), açúcar (-3,7%), soja (-1,3%), algodão (-0,9%), carne bovina (-0,7%), milho (-0,4%), arroz (-0,3%) e ovos (-0,1%). Já o tomate (+6,2%), carne suína (+1,2%), trigo (+1%) e carne de frango (+0,5%) tiveram alta no período.

O indicador que reflete os preços dos combustíveis no mercado atacadista caiu, em média 0,8%, de acordo com o levantamento da consultoria. Na semana encerrada no dia 23, o movimento dos preços foi influenciado por retrações tanto no etanol (-2,5%) quanto na gasolina (0,5%).

A expectativa da MacroSector Consultores é de que o mês de julho também seja de pressão baixista sobre os preços. E o movimento esperado para o atacado deve ocorrer também no varejo.

“No fechamento de 2017, prevê-se que o IPCA alimentos deverá atingir a taxa de 3%, ficando abaixo dos 8,6% alcançados em 2016”, ressalta Fábio Silveira, em referência a um dos componentes do índice oficial de inflação.

Saiba mais aqui.

IGP-M persiste na rota deflacionária

Índice recuou 0,78% nos últimos 12 meses
Por: Fabio Silveira

 

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Em junho, o IGP-M caiu 0,67%, após diminuição de 0,93% em maio, acumulando deflação de 1,95% em 2017; e de 0,78%, nos últimos 12 meses. Em junho de 2016, este indicador registrou alta de 1,69%.

A deflação de junho deveu-se, sobretudo, à queda de 1,22% do IPA (Índice de Preços ao Produtor Amplo), refletindo o declínio de 1,63% das matérias-primas, cujos destaques de baixa foram minério de ferro (- 11,2%) e óleo diesel (- 4,02%).

O IPC (Índice de Preços ao Consumidor), por sua vez, apresentou retração de 0,08% (contrastado com a alta de 0,29% de maio), tendo cinco das oito classes de despesas apresentado taxas negativas. Os destaques de variação negativa foram alimentação (- 0,50%), transportes (- 0,36%) e habitação (- 0,02%).

Finalmente, o INCC (Índice Nacional de Custo da Construção) subiu 1,36%, devido ao incremento de 2,48% no custo de mão-de-obra, já que o segmento de materiais, equipamentos e serviços se manteve estável (+ 0,02%).

Os níveis, hoje, persistentemente deprimidos dos preços na economia brasileira reforçam, evidentemente, a perspectiva de que os juros básicos continuarão em queda nas próximas reuniões do Copom. Mas, ao mesmo tempo, evidenciam que o Banco Central exagerou na duração e na dose da política de restrição monetária (juros altos), incorrendo num custo social e econômico além do previsto. Houve, assim, excesso de recessão e deflação.

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